“O uso da disciplina positiva e CNV é constante, na verdade, é como uma filosofia de vida, é assim que entendemos que a relação deve ser conduzida. Está longe de ser fácil, porque trazemos conosco toda uma carga vinda da forma que fomos criados, e que dependendo de como foi essa relação com nossos pais, pode ser ainda mais desafiador…”
Priscilla Pamplona

Arquivo pessoal Priscilla Pamplona

Será que a maneira com que fomos criados influenciará a maneira com que criaremos nossos filhos? Será que criar meninas é mais fácil que criar meninos? Será que a criação com apego cria “filhos mimados”? Hoje nossa conversa é com a mãe de Salto Agulha Priscilla Pamplona, mãe do Ernesto (2 anos), cantora, fotógrafa, administradora e muito mais. Hoje, Priscilla nos conta um pouquinho sobre como criar filhos com Disciplina Positiva, ter uma Comunicação não violenta e gerar um ambiente sem estereótipos.

Arquivo pessoal Priscilla Pamplona

Qual a diferença entre Disciplina Positiva e Comunicação não violenta (CNV)? 

Disciplina positiva e Comunicação não violenta (CNV) são duas coisas bem diferentes, mas que caminham juntas na condução da educação e construção de nossos filhos. Disciplina positiva é uma filosofia abrangente, que ajuda a criança a desenvolver uma consciência guiada por sua própria disciplina e compaixão em relação aos outros. É uma disciplina empática, respeitosa, amorosa, que fortalece a relação entre pais e filhos e proporciona a criança a oportunidade real de aprendizado, compreensão, pois respeita a criança como indivíduo. Diferente da disciplina tradicional, autoritária, que despreza o sentir da criança, muitas vezes até omite o real motivo das situações, porque as coisas são como são porque o pai ou a mãe quer e não porque, por exemplo, é perigoso para criança ou é importante para essa criança, tirando da criança a possibilidade de aprender e fazer parte das decisões que dizem respeito a ela. Já a CNV é baseada nos princípios da não-violência, sejam elas verbais ou físicas. Não sei se poderia dizer que é uma ciência, mas é um processo de pesquisa contínua, desenvolvida por Marshal Rosenberg, que apoia o estabelecimento das relações de parceria e cooperativas, em que predomina a comunicação eficaz e com empatia. A CNV nos ensina comunicar de forma mais efetiva e eficiente e a perceber a real necessidade por detrás de falas, muitas vezes carregadas de emoção, mas que não comunicam sua real necessidade. É bastante complexo, considero quase como aprender uma nova língua, onde precisamos diariamente exercitar para não perder a fluidez. Utilizar da CNV com crianças, ao meu ver, é até mais fácil (se é que posso chamar assim), do que com adultos, porque não temos por costume julgar tanto as crianças quanto os adultos. O uso da disciplina positiva e CNV é constante, na verdade, é como uma filosofia de vida, é assim que entendemos que a relação deve ser conduzida. Está longe de ser fácil, porque trazemos conosco toda uma carga vinda da forma que fomos criados, e que dependendo de como foi essa relação com nossos pais, pode ser ainda mais desafiador, pois em momentos que precisamos reagir de forma mais instantânea, a reação costuma ser de acordo com aquilo que está enraizado em nós, e ter que pensar para agir diferente desse “reagir” natural é um dos grandes desafios, precisamos ser rápidos em encontrar soluções empáticas e respeitosas, e assim, faremos com que o reagir deles, quando adulto, seja naturalmente assim, empático e respeitoso.

Você acha que criar meninos é mais difícil ou desafiador  que criar meninas?

De forma alguma considero um mais difícil ou desafiador que o outro. Considero que ambos trazem aos pais grandes desafios e, muitos deles, diretamente relacionados aos paradigmas que estão socialmente colocados. Porque azul é de menino e rosa de menina? Porque meninos são super-heróis e meninas princesas? Porque brinquedo de menino é carrinho e de menina é boneca? Porque meninas devem se importar com sua aparência e meninos com as suas aventuras? Esses paradigmas colocam sobre as costas dos nossos filhos, sejam eles meninos ou meninas, um peso de modelos pré-estabelecidos pelo sistema, que desprezam a essência dessas crianças. Eles são seres únicos, com desejos, vontades, gostos únicos e que cabe a ele(a)s perceber e se identificar. O que acontece é que, quando manifestam sua essência e inocência, são imediatamente podados por algum adulto que está ali, sempre pronto para estabelecer o modelo ao invés de estar ali pronto para proporcionar o apoio, amparo e reconhecimento que essas crianças precisam. Um menino brincando de bonecas será menos homem? Ele não será pai um dia? Não deveriam, assim como as meninas, serem incentivados a cuidarem de suas bonecas/filhas, para ser algo natural a eles quando adultos? As meninas, não deveriam ser incentivadas a brincar de carrinhos, skate, detetive, samurai, super-herói e etc? Ou só cabe as meninas brincar de panelinha para, quando adultas, enquanto seus maridos estão em suas aventuras, elas ficarem em casa cuidando das crianças e fazendo o almoço? Considero que temos avançado muito nessas questões de gênero com o passar das gerações, mas ainda há muito o que fazer, muitos paradigmas a serem quebrados.

Como criar um menino sem estereotipá-lo? Pode nos dar algumas dicas?

Também quero saber, Rô! Rs… Difícil, né? Acredito que precisamos nos despir primeiro, dos rótulos e preconceitos que temos e que no automático replicamos. Muito difícil! Da parte prática, eu diria que não se apegar aos brinquedos ditos de menino ou menina, ou cor de rosa e azul, brinquedo é brinquedo, cor é cor e todas as crianças são livres para brincar e usar o que sentirem vontade. Extinguir o uso de rótulos do tipo “você é um menino, não pode chorar” ou “você é uma menina, precisa se comportar”, coisas desse tipo.

Para você, qual o maior desafio da maternidade?

Privação de sono, lidar com o desconhecido todo dia, aprender a conviver com a culpa que nasce junto com a mãe, ter que ser forte quando você na verdade quer desabar… Nossa, são tantos… mas acredito que o maior desafio da minha maternidade, porque cada mãe vai ver ter uma visão diferente sobre esse ponto, é de me reconstruir a cada instante, a cada nova situação, para então conseguir proporcionar a ele uma capacidade de desenvolvimento de consciência própria, dele! Essa questão mesmo de se livrar dos estereótipos e de não encher a criança de rótulos.

Como é feita a comunicação em casa com seu filho? Nos conte um pouco sobre como podemos ajudar nossos filhos a superar uma situação de falta de controle…

Nós desde sempre falamos com o Ernesto de forma correta, quero dizer, sem “tati bitati”. Sempre falamos muito com ele, sobre tudo, explicando detalhadamente cada situação, até que as coisas acabem fazendo sentido. E isso desde sempre! E não só sobre coisas, mas também sobre sentimentos, acontecimentos, pessoas, e etc. Gritar e bater nunca foram opções de ninguém aqui em casa. Mas quem nunca perdeu o controle? Nós, do alto pedestal de adultos, ainda, infelizmente, perdemos o controle algumas vezes (uns mais, outros menos e isso é uma questão individual e de que cada um vai saber se precisa trabalhar de forma mais ou menos intensa para resolver), quem dirá uma criança que não entende sequer o que está acontecendo com ela. Que é tomada por um sentimento que não sabe o que é, mas que sente, intensamente, e então perde o controle. Super normal! E como lidar com isso faz toda a diferença! Acolher a criança, verbalizar a ela o que está acontecendo com ela, para que aprenda a identificar os sentimentos e consiga retomar seu controle tem um resultado muito mais efetivo. Empatia é a palavra! Não há outra maneira de ensinarmos nossos filhos, que não pelo exemplo. Violência é inaceitável por aqui em qualquer nível e de qualquer que seja, pai, mãe, filho, papagaio… As criança reage por instinto (sugiro que busquem ler sobre o cérebro reptiliano), não significa que tenhamos que aceitar que nos bata, mas é necessário entender que a criança não está sabendo lidar com algum sentimento e precisa extravasar, simplesmente dizer a ela que não pode bater, não soluciona, ele continuará precisando extravasar e dar opções para que extravasem os sentimentos funciona muito melhor, por exemplo “filho, a mamãe entendeu que você ficou frustrado por não poder ficar com aquele brinquedo, ele é do seu amigo, mas bater na mamãe ou no amigo, não é uma opção, se você quiser extravasar, você pode bater aqui nessa almofada, toalha, etc…”.

Como fazer a criação do apego sem deixar os “filhos mimados” e “cheios de vontades”?

Excesso de amor e vínculo não faz mal a ninguém! Esse discurso de mimado, sinceramente, eu não dou nem ouvidos! (me julguem! me chamem de mimada!, hahaha). Filhos cheios de vontades? Quem não quer um filho cheio de vontade? Eu quero! Que ele tenha muitas vontades e muitas conquistas. O que as pessoas precisam entender é que uma criança é um ser humano como qualquer outro! Ela só está em processo de aprendizagem sobre tudo que há no mundo, material, sentimental, astral e etc. E precisamos nos doar, ter paciência, compreender, para poder ajudá-los no seu processo de construção. E se, nesse processo de construção, forem amparados, respeitados, amados, não tem como dar errado, né gente!?

Há alguma atividade que você costuma fazer com seu filho que o ensine a mostrar suas emoções e a ser um ser humano de bem?

Não realizo nenhuma atividade especifica para mostrar a ele seus sentimentos ou como ser alguém do bem. Faço constantemente, sempre que o sentimento desponta é a oportunidade perfeita para exercitar esse reconhecimento. “Ser” é a única maneira de ensinar nossos filhos. Não há outra! Reconhecer os bons atos, nossos ou dos outros, também é uma forma legal, por exemplo: alguém segurou a porta para que entrássemos no prédio. Agradeço e digo a ele, “Que gentil ela foi, né filho?! Gentileza gera gentileza!”.

Como é a Priscilla mãe? Mais liberal ou mais rígida?

A mamãe Priscilla é democrática!

Você tem planos de ter mais filhos?

Planos por enquanto, não. Mas vontade, de ter mais uns dez! rs.

Como você gostaria que seu filho se lembrasse de você no futuro?

Eu gostaria que Ernesto se lembrasse de mim como alguém muito amorosa, esforçada, respeitadora e democrática.

Para você, ser Mãe de Salto Agulha é…

Ser mãe de salto agulha pode ser uma forma divertida de dizer que ser uma mãe é dar conta da vida, né gente?! Quase como andar na corda bamba… rs… são tantas as responsabilidades, tantas coisas para pensar e ainda conseguir manter a “Mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo”… né?… rs… Obrigada pelo convite de vir aqui compartilhar um pouquinho da minha maternidade com vocês!

Arquivo pessoal Priscilla Pamplona

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